Era
a missão delas, era esse o ofício para o qual foram meticulosamente preparadas
e, embora matassem nazistas que haviam invadido e devastado seu país e muitas
tivessem longas listas de vítimas – e algumas inclusive desfrutaram disso –,
quase todas tinham desmoronado e chorado na primeira vez, ao alvejar um ser
humano com sua arma.
Tampouco
nenhuma delas, cercada por uma grande massa de camaradas sexualmente famintos,
foi poupada de ter de suportar o assédio e o abuso de seus comandantes e
colegas masculinos, geralmente bêbados: um verdadeiro combate em duas frentes.
Embora
várias tenham se tornado muito populares e até recebido o título de Heroínas da
URSS, não puderam fazer carreira no Exército e, na volta para casa, foram
muitas vezes xingadas de mulheres-machos ou prostitutas.
Quem
conta isso é a pesquisadora russa Lyuba Vinogradova (Moscou, 1973) em sua
chocante e ao mesmo tempo comovedora história dessas franco-aturadoras,
Avenging Angels (recentemente publicada na Espanha pela editora Pasado &
Presente com o título de Ángeles Vengadores, ou Anjos Vingadores).
Reconhecida
colaboradora de Antony Beevor e Max Hastings, Vinogradova –que teve publicada pela
mesma editora sua obra sobre as não menos surpreendentes aviadoras soviéticas
da mesma guerra (Defending the Motherland)– incluiu em seu livro depoimentos de
algumas franco-atiradoras que ela mesma conheceu e entrevistou.
Como
Ekaterina Terekhova, de 90 anos, que manca levemente, consequência de um
ferimento de guerra em Sebastopol, que abateu trinta alemães.
Embora
pareça uma marca enorme, o número empalidece diante dos resultados de algumas
de suas companheiras, como a lendária Liudmila Pavlichenko, considerada a
melhor franco-atiradora de todos os tempos, à qual são atribuídas 309 mortes
(Vinogradova questiona o dado), a maioria com sua espingarda semiautomática
Tokarev SVT-40 com mira telescópica com aumento de 3,5 vezes (a maioria dos
franco-atiradores, no entanto, preferia a mais simples espingarda de ferrolho
Mosin-Nagant, mais precisa).
As
franco-atiradoras eram, junto com as aviadoras, a elite das mulheres soldado
soviéticas, das quais o Exército Vermelho, diante da escassez de homens pela
sangria da guerra, enviou à frente de batalha mais de meio milhão (muitas mais
se incluirmos as partizans e as milicianas civis) para servir em todos os
postos, desde a simples infantaria até sapadoras, artilheiras e operadores de
tanque. A iniciativa contrasta com a oposição absoluta de Adolf Hitler a que as
alemãs pegassem em armas.
As
franco-atiradoras, que obrigaram milhares de soldados alemães a rastejar, foram
treinadas como seus colegas homens e sofreram como eles os rigores de uma
guerra selvagem, aos quais foram acrescentadas penúrias específicas como ter
suas tranças cortadas, não dispor de roupas e calçados adequados, de
instalações sanitárias específicas ou das medidas de higiene que requerem.
A
menstruação era um aborrecimento quando se estava caçando nazistas. Muitas, diz
Vinogradova, usavam calcinha e sutiãs que haviam trazido de casa sob a roupa
íntima regulamentar de homem.
Elas
aprenderam a atirar, a se camuflar, a permanecer imóveis por longos períodos de
tempo. Vinogradova cita que alguns estudos apontaram (com o perdão da palavra)
que elas podiam ter melhor desempenho na caça por serem mais tranquilas e
pacientes. Contra elas, tinham a dificuldade de suportar o violento recuo do
fuzil.
“Era,
naturalmente, muito mais difícil e traumático matar uma pessoa com uma
espingarda do que em um avião”, diz. “A 200 ou 300 metros, através da mira
telescópica, você vê perfeitamente o rosto da vítima, sabe muito bem quem está
matando.
Todas
elas explicam que a primeira morte foi um grande choque. Algumas se
acostumaram, outras não. Ao matar seu primeiro alemão, Lida Larionova pulou da
trincheira horrorizada e correu para suas fileiras gritando: “Eu matei uma
pessoa!”.
Tonia
Majliaguina, que era órfã, se lamentou depois de ter abatido sua primeira
vítima: “Ele era pai de alguém e eu o matei!”. A morte foi deixando de
impressioná-las de forma gradual. “Um cartucho, um fascista!”, incentivava Roza
Shánina quando já tinha matado mais de vinte alemães.
Ela
morreu quase no fim da guerra, com a barriga aberta por estilhaços, tentando
conter com as mãos os intestinos que se esparramavam e pedindo a seus
companheiros que a matassem rapidamente.
Quando
recebeu a medalha que havia ganho, Bella Morózova fez o possível para mostrar
apenas um lado do rosto. Uma bala havia entrado pela têmpora do outro lado,
atravessando sua cavidade nasal e deixando-a sem um olho.
Tinha
apenas 19 anos. E voltou para a frente. O soldado que tinha se apaixonado por
ela não mudou de opinião depois de vê-la desfigurada e depois da guerra
formaram uma família e viveram juntos por muitos anos; um raro final feliz.
As
franco-atiradoras lutavam em duplas e a morte da companheira, muito comum,
costumava ser um trauma terrível. Algumas perderam até quatro.
Vinogradova
acompanha a carreira de um bom número de franco-atiradoras durante a guerra.
Casos muito notáveis, como os de Natasha Kovshova (capaz de atingir seus alvos
no nariz, sua assinatura) e Masha Polivánova, uma das duplas mais notáveis de
franco-atiradoras.
Em
1942, em Sutoki-Byakovo, elas apoiavam um franco-atirador homem e um ataque
deixou os três isolados. Foram feridos e as moças – seu companheiro rastejou e
escapou– juraram em seu poço de atiradoras que não cairiam vivas nas mãos do
inimigo (o que para uma franco-atiradora invariavelmente significava violação,
tortura e execução).
Tiraram
o pino de segurança de suas granadas, esperaram a chegada dos atacantes e então
as fizeram explodir, morrendo e levando alguns alemães.
Há
casos como o de Sasha Shliakova, cujo capricho de usar um bonito lenço vermelho
durante suas missões levou que fosse morta por um atirador alemão. Tania
Baramziná, escolhida como franco-atiradora embora fosse míope e usasse óculos,
foi capturada, torturada e morta com um lançador de granadas.
Vinogradova
dedica um capítulo a Pavlichenko, que visitou os Estados Unidos e foi aclamada
por multidões, à qual Woody Guthrie dedicou uma canção e que foi admirada por
Chaplin, que beijou seus dedos fascinado, dizia que havia matado centenas de
nazistas.
“Acho
a história dela muito estranha”, diz a autora. “Na verdade, acho que qualquer
estrela com mais de 300 mortos, feminina ou masculina, é falsa. A propaganda
precisava de heróis”. E Zaitsev, o grande atirador que aparece no filme Círculo
de Fogo? “Muitos franco-atiradores que conheci foram muito céticos em relação
ao seu desempenho.
Lidiya
Bakieva, que matou 76 alemães, me disse: “Você tinha muita sorte se conseguisse
lhes dar um por dia. Matar dez, bem, isso exigiria que eles se alinhassem em
fila esperando que você disparasse neles!”.
Vinogradova
menciona muitos casos de duelos de franco-atiradoras com sua contraparte alemã
(sempre homens), inclusive com ases do fuzil.
Como
aquele que é creditado a Pavlichenko, que teria matado, depois de haver
espreitado durante 24 horas, um tipo que tinha começado a caçar em Dunquerque e
que tinha (de acordo com a caderneta que foi encontrada com o cadáver) 500
vítimas. Esse seria um dos 33 atiradores alemães liquidados pela ucraniana.
Tosia
Tinguinova teve seu duelo quando com vinte anos. Dispararam ao mesmo tempo. Ela
matou o franco-atirador alemão. Foi salva pelo recuo do fuzil, que a afastou
alguns centímetros, e a bala do inimigo perfurou a culatra de sua arma ao invés
de atingi-la na cabeça. (Fonte: )

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